- Autoridades justificaram-se afirmando que, nas primeiras semanas de janeiro, já choveu mais do que a média do mês nos últimos anos.
- Aqui, no Carnaval de Olinda, a festa não tem hora para acabar.
O que há de comum entre elas? Bem, nada muito além do fato de que são figurinhas que se repetem com impressionante regularidade. Para o repórter que transmite a folia pernambucana, a frase, quase um mantra da alegria, é indolor. Já a outra carrega, em seu bojo, duas tristezas: a consequência do aguaceiro em si e a responsabilização da natureza por algo que a ação humana poderia certamente minimizar.
Rohini Swaminathan é engenheira de informação geoespacial da Unitar, o instituto das Nações Unidas voltada a treinamento e pesquisa, localizado em Genebra, na Suíça, e já trabalhou com a Nasa. Ela treina lideranças e gestores na Ásia e na África para a implementação de sistemas para a redução dos riscos relacionados a desastres.
Ela me explicou algo bem claro: chamamos equivocamente de "desastres naturais" as mortes causadas por furações, inundações, entre outros eventos. Mas não há nada de natural nisso, pois já há tecnologia e protocolos para prever, reduzir e evitar o sofrimento causado. Como a retirada da população de um local, com antecedência, e a recolocação em outro, de forma decente e digna. Ou a melhoria estrutural de uma comunidade para evitar um deslizamento. Se não são implantados é por irresponsabilidade ou incompetência de gestores.
No Brasil, se choveu mais do que deveria, moradias deslizaram e pessoas morreram fica a impressão de que não daria para fazer nada, não é? Mas não é bem assim.
Desse ponto de vista, o que é desastre vira descaso e pode, inclusive, ser alvo de responsabilização judicial. Ou, ao menos, eleitoral. Se a nossa cidadania fosse exercida de fato.
Ocupação irregular, planejamento, reforma urbana são expressões ouvidas apenas no tempo úmido e não fazem sucesso durante as eleições. Na seca, evaporam do léxico não só dos mandatários, mas também de pobres e ricos, que continuam construindo, desmatando e poluindo. Suas razões são diferentes, mas o efeito é o mesmo. Vale lembrar que tudo isso dito aí em cima não gera um voto, pelo contrário: quem é o doador que vai ficar feliz por ter a construção de sua casa em uma área de preservação ambiental embargada?
Providências que não incluem apenas um sistemas de alerta decente, para fazer circular informação rápida e efetivamente horas, dias ou semanas antes de um fenômeno natural - o que já existe em muitos países. Mas também a execução de políticas decentes de habitação, saneamento, contenção de encostas, dragagem de rios, limpeza de vias, campanhas de conscientização quanto ao lixo. Falhas neste caso custam vidas e um “foi mal, aí, não tinha como antecipar” não resolve.
(Íntegra do texto, no post do blog.)