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Garçom, traz a conta do anti-petismo!

O famigerado dia 05 de outubro chegou e o Povo fez a sua voz ser ouvida. E a conta saiu cara. O PT perdeu 18 cadeiras na Câmara dos Deputados, teve apenas 3 governadores e 2 senadores, perdendo nomes de peso, como o de Eduardo Suplicy. Talvez as coisas melhorem com os resultados do segundo turno. Mas, nessa parcial, Dilma, se conseguir ser eleita, governará com ainda maiores dificuldades por contar com uma base governista reduzida em relação ao seu primeiro mandato. É dito que o Congresso eleito é o mais conservador desde 1964.

 

Como chegamos a esse ponto?

 

Primeiramente, faz-se necessário esclarecer a quem este texto se dirige: falo aqui com eleitores da esquerda; se você é da direita, este texto provavelmente não lhe interessará (e muito menos lhe convencerá), especificamente eleitores da esquerda críticos ao governo PT, adeptos do anti-petismo. Também estou falando com a dita "esquerda reformista", no sentido da esquerda que crê no processo democrático. Se você acha que mudanças pra melhor são impossíveis via democracia e defende "revolta armada", bem, este texto também não foi escrito para você. Por fim, estou assumindo que você acredita que, apesar dos pesares, o governo PT tenha trazido avanços em relação a governos anteriores e que seja preferível a uma retomada do PSDB. Se você é o tipo de niilista político que acha que tanto faz PSDB ou PT, eu também não tenho intenções de convencê-lo do contrário.

 

Falo principalmente com essa esquerda, porque pretendo dizer que, infelizmente, eu acredito que a culpa disso, em partes, é de vocês.

Para abrir meu argumento, gostaria de lembrar a fala da Luciana Genro em um debate, quando ela dizia a um dos candidatos que "política não se faz cedendo". É exatamente esse o erro: política se faz, sim, cedendo. Essa fala da Luciana Genro foi uma das muitas razões que eu tive para entender que ela não era capacitada para ocupar a presidência e que está fadada a ocupar cargos periféricos eternamente ou "se vender" para conseguir uma posição onde possa fazer mais pelo país.

 

Política se faz cedendo e sendo sutil. Se faz negociando. As mudanças são lentas, às vezes imperceptíveis. Façamos um pequeno exercício mental: imagine o Brasil, lá pelos idos de 1800 governado por Dom Pedro I. Imagine agora que, ao contrário do Dom Pedro que tivemos, houvesse um governante extremamente progressista e contrário à escravidão. Oras, ele, sabendo-se soberano do Império Brasileiro, decide usar de seus poderes para abolir a escravidão, uma vez que tem a seu dispor todo o aparato do Estado para fazer isso. O que vocês acham que aconteceria? Eu sei dizer com quase certeza: ele sofreria um golpe de Estado e perderia a coroa, e a escravidão voltaria ser o status quo. Por quê? Porque, diferente do que pode parecer, a escravidão não é abolida por decreto. O decreto veio quando esse modo de produção já estava em sérios apuros no âmbito ideológico, ruindo em grande parte do mundo. E, mesmo assim, há quem acredite que abolir a escravidão tenha custado a coroa de Dom Pedro II.

 

A escravidão não é abolida por decreto, porque há forças maiores do que o decreto e a vontade do monarca em jogo. A sociedade inteira se pautava naquele modelo de produção econômico. Havia vários atores internacionais em relação comercial com o Império Brasileiro (inclusive a militarmente superior metrópole, Portugal), que seriam seriamente lesados pela medida (e que não deixariam isso barato). Havia toda uma estrutura ideológica e valores profundamente ancorados na população brasileira, passando desde a elite até os próprios escravos, que visavam naturalizar e justificar a escravidão. Se Dom Pedro I abolisse a escravidão por decreto, não conseguiria nada além de cometer suicídio político, manter o status quo pró-escravidão e ser substituído por alguém menos ameaçador do ponto de vista econômico.

 

Sabendo que tentar abolir a escravidão por decreto seria suicídio, deveria o monarca ser conivente com tamanha imoralidade, tolerar o intolerável e permitir tamanha violação de direitos humanos em suas terras? Que tal ser mais inteligente? Esse monarca poderia, por exemplo, sutilmente e na medida do possível MINAR a instituição social da escravidão, fomentando ideologias abolicionistas cá e lá, dando destaque a membros do clero que pregassem contra a prática, aprovando medidas mais discretas e de poder mais limitado que favorecessem os escravos; nomeando magistrados que ele soubesse serem compassivos com a causa para julgar conflitos envolvendo revolta de escravos etc. Essa estratégia soa como conivência à escravidão? Bem, então ele poderia ir lá assinar o decreto, perder a coroa e deixar tudo como estivesse. A melhora que ele fez para a vida dos escravos foi, efetivamente, zero. E ele tinha todos os poderes e condições para fazer melhor.

 

Se você se enquadra nas assunções que eu enumerei no início do texto, então é seguro eu presumir que você concorda com viver em uma república democrática. Se você concorda com viver em tal estrutura, também concorda com que as coisas devam ser democraticamente resolvidas e decididas. O Estado de Direito deve ser respeitado e os poderes não devem agir de maneira arbitrária. Como, então, você quer que "política não se faz cedendo?" Você acha que 143 milhões de brasileiros tenham as mesmas ideias e o mesmo projeto político que você? Você acha que os representantes desses 143 milhões de brasileiros vão cruzar os braços enquanto você implementa todas as etapas desse plano, sem resistência? Você acha mesmo que, "mostrando o pau na mesa", vai intimidar todo mundo que pensa diferente? Acho que está na hora de você se lembrar de que a esquerda nesse país sempre foi marginal, até então.

 

Ou talvez você ache que o melhor é "não se vender" (as aspas, porque como eu espero ter deixado claro, ceder é parte das regras do jogo). Isso é permanecer naquele discurso "contra o capital financeiro e contra as elites" para sempre. É beber na água do pós-estruturalismo e ficar brincando nesse jogo universitário de "oprimido versus opressor". Sem com isso mover uma palha pra ajudar ninguém. Vocês acham que ideologia enche barriga dos outros? Que discursos bonitos e emocionantes contra o conservadorismo mudam alguma coisa? Se vocês bebem na mesma fonte teórica que eu, deveriam saber que o que move as coisas é botar a mão na massa.

 

Assim como no exemplo da escravidão, há vastos interesses em jogo no campo político deste país. Não, o PT não conseguiria criminalizar a homofobia, aprovar o casamento gay, legalizar as drogas e o aborto, auditar a dívida pública, proibir financiamento público de campanha, aprovar uma lei de mídia e fazer uma reforma tributária sem sofrer algo de um golpe de Estado para cima. Não há capital político para isso. Se ele tentasse impor na marra qualquer uma dessas coisas, o resultado mais provável seriam uma indisposição e uma paralisação dos outros poderes. Resultaria num impasse entre a presidência e o Congresso. E o resto do país iria continuar pegando fogo. A insistência iria simplesmente resultar no governo mais ineficiente e paralisado da história deste país, ou, em se tratando de uma mídia golpista e mau caráter como nossa, em um processo de impeachment com alguma acusação que ela arrumaria e acharia adequada. Nem mesmo comecei a esboçar considerações sobre o cenário internacional, e visto que o Brasil é a sétima maior economia do mundo, pode ter certeza que tem muito peixe grande de olho nos cavalos que correm aqui na terra do Tupiniquim.

Agora, eu IMPLORO a você para que olhe para o quadro geral.

 

No geral, não estamos mais próximos de uma agenda de esquerda durante esses anos de governo do PT do que estivemos há 12 anos? Não há menos pessoas miseráveis, mais pessoas estudando e trabalhando, menos desigualdade? Não foram nesses doze anos em que mais universidades foram construídas, em que mais se gastou em programas de inclusão de minorias e dos mais necessitados, onde pobres tiveram maiores oportunidades de acesso ao nível superior? Não caminhamos no sentido de uma sociedade com menor desigualdade de renda, de maior justiça social? O PT não fez nenhum avanço social nesse tempo inteiro? A união estável homoafetiva não foi aprovada sob a égide petista – sim, foi o Judiciário, mas quem foi que indicou aquele corpo de juízes extremamente ativistas, o que mais tarde resultaria em um dano colateral ao PT no julgamento do Mensalão –? Não é este o momento histórico em que a pauta LGBT está em maior evidência na história? Vocês sinceramente acreditam que a Dilma é contra casamento gay e contra o aborto?

 

É por isso que me deixa muito chateado ler que " o PT é de direita", "o PT e o PSDB são a mesma coisa". Porque eles não partem de pessoas à direita do PT, e sim teoricamente a sua esquerda. Mas são pessoas que, cegas pelo seu purismo ideológico, não conseguiram entender que, para fazer a diferença na sociedade, é preciso ceder ceder sim. Há que se ter algum pragmatismo. Não se vencem todas as batalhas e às vezes temos que escolher as batalhas que nos são mais caras.

 

Com certeza há muito de questionável em muito do que o PT faz. Ambientalmente, eu até admito o questionamento do espectro político do partido, já que esse se mostrou muito conservador nessa seara. E é importante que as militâncias cobrem sim um posicionamento favorável ao casamento LGBT, à legalização das drogas, à auditoria da dívida pública e aos demais temas. É importante, porque, sem a pressão da sociedade, essas pautas não serão aprovadas nunca. Temos que sinalizar aos nossos representantes que há vontade popular de colocar esses projetos em movimento e que muitas dessas bandeiras são caras. Não quero de modo algum sugerir que as críticas ao PT vindas da esquerda se calem, sou e sempre fui contra esse tipo de estrategema corporativista, quer em movimentos sociais, quer em partidos ou ideologias políticas.

 

Mas igualar o PT à direita e desmerecer completamente o seu projeto político em consequência disso é, em minha opinião, não enxergar o quadro geral. É confundir a batalha com a guerra. É ser injusto. E é contribuir para o quadro que observamos no Congresso, uma vez que o eleitor, observando que o PT não tem apoio nem na direita e nem em seu berço, a esquerda, cede ao conservadorismo, que é o voto do status quo sem uma identidade, partidária ou de classe.

 

Eu torço pela presidente Dilma nesse segundo turno e espero que ela saia vitoriosa. Os quatro próximos anos serão difíceis para qualquer presidente, mas principalmente para a Dilma, persona non grata da imprensa e impopular em relação ao mercado. A conta parcial já veio cara, o parlamento está comprometido. Todo o apoio nesses momentos de dificuldade será valioso.

 

Ou então podemos entregar a presidência ao PSDB de uma vez, já que é tudo a mesma coisa...