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Festa punk para poetas malditos

Matéria publicada no jornal Zero Hora em 08/01/2013

 

"Projeto paralelo que reúne três integrantes da cultuada banda Viana Moog, a Siléste apresenta, em seu primeiro disco, a ambiciosa e difícil proposta de casar elementos opostos, por vezes extremos. Ao longo das oito faixas do álbum, o grupo de São Leopoldo tenta conjugar, ainda que a golpes de martelo, simplicidade e sofisticação; guitarreira pesada na distorção e letras calcadas em jogos de palavras de inspiração concretista; barulho de garagem e poesia junkie-beatnik.

 

Siléste, o álbum, é uma produção independente, e está disponível para audição e download na internet. O compositor e vocalista Everton Cidade lidera o projeto, ao lado dos guitarristas Leonardo Serafini e Cris Spaniol, também integrantes da Viana Moog, e do baterista Mádger Barte. A produção do disco visivilmente tenta manter a experiência da banda ao vivo, com instrumentos de tal modo distorcidos que formam uma cacofonia, dificultando o entendimento do que Cidade canta. Vale mais a construção de uma massa sonora do que a dicção certinha de um som bem produzido.

 

Se isso é sinal de coerência - e as oito faixas são bastante coesas ouvidas em conjunto -, também por vezes parecem ser a mesma canção tocada com variações de andamento e letra. Jesus Genet, que se vale de refências de uma linhagem estética "maldita", elevando ao messianismo a santidade decadente de "São" Genet, ecoa claramente no rock distorcido e melancólico de Anzóis.

 

Embora as influências do grupo estejam por toda a parte, à flor do som, a grande pergunta é se vale à pena apontá-las - a banda é uma honrosa representante de um punk-rock pós-moderno em que cabe praticamente tudo, e o resultado é uma amálgama no qual cada ouvinte reconhecerá um fragmento - Agulhas de Carnaval, por exemplo, relato de uma folia momesca doentia e regada a drogas, ampara-se em guitarras raivosas que para uns lembrarão o rock de garagem dos anos 1980, e, para outros, a pscicodelia cuja matriz gaúcha é Júpiter Maçã. E provavelmente todas estarão certos.

 

O destaque do álbum vai para a antiprece O Deus do Dia, uma faixa restrita ao essencial, com apenas 1min39seg, mas que captura o ouvinte com seu refrão grudento, no qual o vocalista canta que "o deus do dia"o "deixou só" com "Coca / Conhaque / Com", em uma estrutura circular que lembra um poema concretista. As letras de Cidade não se atêm a frases poéticas, trabalham a palavra ela própria como signos, daí versos inteiros compostos de uma única palavra que ecoa ou remonta as que precederam. Embora pareça um bicho raro, a Siléste requista seu lugar em uma tradição - evocando Genet, o mártir literário dos excessos, por exemplo, ou homenageando duas bandas gaúchas cultuadas da cena roqueira do início dos anos 2000, Blanched e Screams of Life, citadas no título de Blanched/SOL, em que a letra canta, à moda dos malditos: "o teu útero é um monstro / no teu corpo"."

 

por Carlos André Moreira

 

foto Mario Arruda