Ubaitaba, "cidade das canoas" em tupi-guarani. Eu nunca tinha ouvido falar desse minúsculo municípi...o de 25 mil habitantes no Sul da Bahia até 2010, quando um frustrado Isaquias Queiroz caiu da canoa e foi eliminado da disputa dos Jogos Olímpicos da Juventude de Cingapura. Um azar danado. Já ali era impressionante ver aquele menino, sem metade dessa massa muscular que tem hoje, batendo nas preliminares os já musculosos e bem nutridos adolescentes brancos europeus.
No ano seguinte, Isaquias levou duas medalhas (um ouro e uma prata) no Mundial Júnior na Alemanha. Era inacreditável que um brasileiro despontasse como melhor do mundo numa modalidade que SEMPRE foi dominada por europeus. Ubaitaba voltou à minha cabeça. Pesquisei um pouco e descobri que outros talentos da canoagem brasileira estavam surgindo dali.
Fiquei intrigada e, em 2013, vendi a pauta para o amigo Lucas Renan Bessel, da Isto É 2016. A intenção era descobrir o PORQUÊ de Ubaitaba ter essa vocação para revelar tanta gente boa em um esporte sem tradição alguma no Brasil. Cheguei lá e descobri que, APESAR DE TUDO, a cidade era um celeiro de talentos da canoagem.
O que encontrei é uma boa radiografia de como o esporte brasileiro é tratado. Muito investimento concentrado em atletas que já possuem resultados e um completo descaso com a formação e a inclusão social de crianças por meio do esporte.
Nessa época, Isaquias já era tratado como diamante a ser lapidado para a Rio-2016. Não surpreende em nada se sair desses Jogos com três medalhas no pescoço. No último ciclo olímpico, foi treinado pelo espanhol Jesus Morlán, ex-técnico de David Cal, um fenômeno da canoagem. Em quatro anos, Isaquias somou resultados consistentes em Mundiais, com três ouros e três bronzes acumulados. Se o Brasil só está conhecendo Isaquias agora é por uma deficiência grave no foco excessivo que se dá ao futebol.
O que surpreende mesmo foi a trajetória entre o menino que começou a dar as primeiras remadas em condições extremamente precárias e o que conquistou pela primeira vez um Mundial. É nesse limbo que muitos talentos, fora do radar dos patrocínios e da atenção das entidades esportivas, são desperdiçados.
Cheguei em Ubaitaba e a primeira coisa que descobri foi que o filho mais ilustre da cidade é mais conhecido por um apelido curioso. "Isaquias? Ahhh, o Sem-Rim..." Ri muito com essa história que na verdade é bem trágica, mas virou piada na cidade.
Quando tinha 10 anos, o menino se equilibrava nas barras de ferro do rio que corta a pequena Ubaitaba e foi parar na UTI após cair numa pedra e sofrer uma lesão grave que resultou na extração do seu rim. Voltou a treinar canoagem por pura teimosia, a despeito das dores na região lombar que persistiram por anos.
Eu arregalei os olhos enquanto a mãe dele, Dilma, me contava essa história com um misto de orgulho e culpa em uma casa bem precária, que, graças ao pouco de dinheiro que Isaquias já havia conquistado na época, destoava um pouco dos barracos ao redor. Viúva, ela criou praticamente sozinha seus seis filhos enquanto dava faxinas na rodoviária da cidade.
Era IMPRESSIONANTE aonde aquele menino tinha chegado. Assim como o ouro de Rafaela, penso que os triunfos do "Sem-Rim" não são do Brasil, mas APESAR do Brasil.
Logo ali embaixo, estava o Rio de Contas, onde a molecada de Ubaitaba costuma dar suas primeiras remadas de brincadeira. Antes de ser esporte, a canoa por lá é e sempre foi um meio de transporte. Daí não ser uma surpresa que tantas crianças se interessem pela modalidade e desenvolvam naturalmente a aptidão pela canoagem.
Mas tal qual a fétida Baía de Guanabara, o Rio de Contas, que corta não só Ubaitaba como também vários municípios do Sul da Bahia, é extremamente poluído. Quase todos os canoístas tinham sido afetados em algum momento de suas trajetórias pela esquistossomose, mais conhecida como "barriga d'água", essa típica enfermidade de países subdesenvolvidos que não se preocupam com algo tão fundamental como saneamento básico.
Meu choque foi ainda maior quando entrei na humilde e pequena construção à beira do rio que servia de base para a Associação Cacaueira de Canoagem. Era ali onde estavam armazenadas as canoas com as quais a molecada praticava o esporte. Todas precárias, remendadas, estropeadas. A "sala de musculação" contava com poucos pesos enferrujados com os quais os atletas tentavam se exercitar.
Não tenho a menor ideia de como Ubaitaba está hoje, três anos depois. Gostaria de acreditar que os resultados de Isaquias de alguma forma contribuíram para levar investimentos para formar e incluir no esporte meninos e meninas da cidade, cujos índices de criminalidade são altos. O técnico Figo Conceicao na época me contou que a canoagem era o principal meio de distração da molecada para "evitar cair na marginalidade". Talvez nesse momento em que Isaquias brilha no Rio, o Brasil se preocupe um pouco mais com a "Cidade das Canoas" e com as crianças de lá que só precisam de um mínimo incentivo para trilhar um caminho mais esperançoso.
O link da matéria completa da Isto É 2016 está aqui: http://www.istoe2016.com.br/a-cidade-das-canoas/
Foto: João Castellano, que me acompanhou nessa jornada maravilhosa pela Bahia