Morreu o Jaime Santos. Quando fui para Maputo uma das surpresas que tive foi a apetência que ali reinava por saraus de poesia - coisa então algo em desuso por cá. Logo à chegada me deparei com vários. O trio de declamadores que mais ouvi era composto pelo bom do Calane da Silva - que também já foi -, a minha querida Ana Magaia, e o Jaime. Todos eram bastante enfáticos, mas isso mais me surpreendia nele, naquela sua força fragilíssima, de onde lhe viria tudo aquilo? Era um hom...em peculiar, logo ombreámos, "olhe que o Jaime é um tipo difícil", avisavam-me os mais desatentos àquela sua infinita doçura, às vezes mal disfarçada. "E não sou eu também?", resmungava-lhes... E dizia-lhe disso, ele gargalhava, naquela sua casquinada tão própria.
Andei agora aqui vasculhando as prateleiras mais esconsas, onde guardei as coisas da "cultura", catálogos e preçários, folhas de sala, biografias, sei lá mais o quê, do que fui vendo por lá. Procurando materiais com ele, para ilustrar este meu adeus (sou ateu, não uso os insuportáveis RIP's, "descanse em paz", "um dia estaremos juntos..." e quejandas superstições). Mas nada encontro, tamanha a profusão de pastas, não seja por isso... Entre tantos dias mais avulsos lembro-me de uma sessão mais composta, "produção" mesmo, que fez com a Ana Magaia sobre Pessoa & Heterónimos, uma realização muitíssimo bem conseguida. Era para seguir até à Beira, ele próprio não quis, demasiado descrente naquele dia. Teria encantado....
Com o passar dos anos fui-me retirando das coisas da "cultura". Nisso vendo-o menos. Mas encontrava-o, quase sempre, quando ia a uma livraria - eram pouquíssimas em Maputo. Nelas - mais na Escolar Editora, seu poiso habitual - ele abancava a ler, tinha "carta branca" devida ao leitor compulsivo e - sempre - pouco abonado que era. Às vezes interrompia o livro para me explicar o que lia. Outras pausava um pouco mais para irmos beber um copo - "vinho" - ao estaminé mais próximo. Outras vezes mal me ligava, embrenhadíssimo num qualquer texto...
Esta fotografia que partilho, tirada do mural do Tomas Cumbana (e talvez dele-próprio), muito provavelmente será da última vez que o vi declamar, com o mundo irado dentro dele, no funeral do Alexandria, o escultor inacreditavelmente linchado por uma turba desaustinada.
Mesmo cá de tão longe, e provavelmente nisso para sempre, "isto" sem o Jaime fica mais deserto.