BRAGA POR UM CANUDO
Faz hoje precisamente um ano, estava em Braga por um canudo - mais concretamente, para prestar provas de doutoramento em Comunicação no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho.
Durante três horas, perante um júri luso-brasileiro-angolano, defendi a tese "Raízes do estranhamento: a (in)comunicação Portugal-Brasil", de quase 500 páginas, fruto de um aturado trabalho de pesquisa que realizei ao longo de cinco anos, sob tutela conjunta da UMin...ho e da UnB, a Universidade de Brasília.
O júri foi generoso e no final atribuiu a nota de Muito Bom, "com distinção", que me encheu naturalmente de alegria. Dessa forma concretizava - ao cabo de trinta anos de uma vida algo agitada pelo mundo em pedaços repartida - o sonho de sempre dos meus pais que um dia, na já longínqua década de sessenta, os levou a sair do Alto Alentejo para poderem dar instrução superior aos filhos.
Essa distinção não faz, como é óbvio, de mim, um investigador. Já é tarde para isso. Até certo ponto, ela tem aliás o sabor de um "honoris causa", coroando no fim da vida a minha carreira profissional.
Ainda assim, foi bom saber, a par das observações críticas, que o texto apresentado "tem qualidade de sociologia histórica, tanto ou mais que de comunicação".
Estou agora a preparar o texto de edição da tese, que conto poder publicar no final deste ano, se o Corona deixar.
Entretanto, fiquei à espera do canudo.
De Braga, depois de ter pago 20 Euros, recebi por correio um papel carimbado com um simples parágrafo, totalmente inexpressivo, que não tenho cara de colocar aqui.
Não que eu esperasse alguma coisa grandiosa, na linha da imponente Bracara Augusta do Império Romano ou que remetesse para a grandeza rutilante dos arcebipos da Sé da Braga...
Sei perfeitamente que os tempos são outros - tudo é mais célere, simplificado e democrático; mas, reduzir o canudo a um simples papel carimbado parece exceder em singeleza franciscana os parâmetros universais nesta matéria. Até porque, em termos de comunicação, um comprovativo de doutoramento é uma imagem de marca forte que a UMinho não devia desprezar, já que possui pergaminhos (pergaminhos!) dignos de nota.
Do lado brasileiro, ainda estou à espera. Como não paguei nada, não posso reclamar.
De qualquer forma, em termos de comprovativo das provas dadas e dos resultados obtidos, gorou-se a minha expectativa de poder um dia apresentar aos meus amigos algo um pouquinho mais vistoso.
Não por vaidade pessoal, que é sempre vã, mas para melhor corresponder à dimensão do esforço empreendido e à própria dignidade das instituições envolvidas. A forma conta. No entanto, um ano depois das provas, posso afirmar, afinal, que neste quesito fiquei a ver Braga por um canudo...
O que não deixa de estar em consonância com o espírito do tempo. Lá em cima, no Sameiro, até o canudo propriamente dito já não é o que era, reduzido que está - nesta época de drones, internet e viagens virtuais - a um tubo avariado e inútil, pendendo do seu pedestal como um braço desengonçado, ao lado de um anjo de pedra de asas quebradas.