-ALERTA-
Seguranças do Presidente da República de Moçambique molestam jornalistas
O MISA Moçambique tomou, com enorme apreensão, o conhecimento da agressão e intimidação de jornalistas, protagonizada pelos seguranças da casa militar, durante a entrevista ao Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi, no rescaldo da qualificação, no último sábado (9), da selecção nacional de futebol à Copa Africana das Nações, CAN 2024.
... Um os maiores visados dessa violência foi o Jornalista do portal desportivo online LanceMZ, Alfredo Júnior, que na altura questionava o sentimento do chefe do Estado diante da qualificação dos Mambas ao CAN. Enquanto o Presidente da República respondia à pergunta, os seus militares travaram o jornalista arrastando-o brutalmente para um lugar distante, ante a perplexidade dos demais jornalistas presentes no local. “O que aconteceu foi que após fazer uma pergunta inofensiva ao PR que já estava a responder, fui violentamente arrastado do local, pelos seguranças. Ainda que protestasse, eles não quiseram ouvir nem a mim e muito menos ao Presidente,” afirmou Alfredo Júnior.
A intervenção grosseira dos seguranças do chefe do Estado resultou na danificação do equipamento de trabalho do jornalista (telemóvel e estabilizador para câmera de celular).
Aparentemente desconfortável com a actuação dos seus seguranças, o Presidente da República, Filipe Nyusi, deu coro à voz dos demais jornalistas que exigiam o regresso de Alfredo Júnior, à colectiva de imprensa. No final, Filipe Nyusi pediu desculpas pelo sucedido, justificando o facto com o calor dos festejos decorrentes da conquista da selecção nacional. “Primeiro, pedimos desculpas pelos empurrões verificados [durante a entrevista]. Este é sinal de um país que está há muitos anos sem alcançar uma conquista destas [qualificação à CAN]. As emoções são enormes e devem ser compreendias,” referiu o Presidente da República. Em tom sarcástico, Nyusi chegou mesmo a sugerir que os jornalistas deixassem de estar “amuados”, sob risco de voltarem a ser manietados.
Ainda que inexista uma versão clara das razões desta incompreensível acção, a Media Mais TV refere, numa peça jornalística sobre o assunto, que tal deriva do facto de o uso de telemóveis para a captação de imagens ser proibido nos protocolos de segurança do Presidente da República.
Posicionamento
O MISA Moçambique repudia esta e qualquer outra forma de agressão e intimidação à jornalistas, sobretudo em pleno exercício das suas funções. Para o MISA, o argumento usado pelos seguranças do chefe do Estado para agredir e impedir o jornalista de realizar o seu trabalho [proibição do recurso ao telemóvel para a captação de imagens] é infundado. Nos dias que correm, de alto progresso técnico e tecnológico, o telemóvel deixou de ser um mero instrumento de comunicação interpessoal, sendo uma ferramenta de alto relevo na produção mediática. Havendo receios de insegurança decorrentes do uso de qualquer dispositivo jornalístico, entende o MISA, os agentes de segurança presidencial têm a obrigação não de molestar o seu detentor, mas de inspeccionar o equipamento, como tem sido prática em vários eventos estatais e até privados em Moçambique e no mundo.
Surpreende ao MISA o facto de o equipamento alegadamente proibido ter sido usado em vários eventos participados por altas individualidades nacionais, tendo sido devidamente autorizado no acto da credenciação dos jornalistas destacados à cobertura do jogo deste sábado. Em Agosto do presente ano, recorde-se, Alfredo Júnior usou o mesmo equipamento para a cobertura do encontro entre o Presidente Filipe Nyusi e o seu homólogo ruandês Paul Kagame, com a selecção de basquetebol em Kigali, no Ruanda.
Mais do que o acto em si, surpreende ao MISA, a aparente banalização, pelo chefe do Estado, da acção dos seus agentes, ao ponto de associar a agressão à mera consequência do frenesim da conquista da selecção nacional de futebol. As declarações do Presidente da República sobre o incidente podem estimular e normalizar comportamentos desviantes dos cidadãos até mesmo em ambientes festivos como foi o caso do Zimpeto.
O MISA exige, por isso, que medidas correctivas sejam tomadas pelo chefe do Estado, porquanto os agentes em referência desobedeceram a ordem [de parar com a agressão] do seu comandante em chefe. Agindo desta forma, estar-se-ia a desencorajar este e quaisquer outros comportamentos vis à Liberdade de Imprensa protagonizados por indivíduos muito próximas do Presidente da República, evitando-se assim que a reputação do país seja manchada no capítulo de direitos e liberdades fundamentais.
Maputo, 11 de Setembro de 2023.