Renato Alberto Covas
about 2 years ago

Biodiversidade - Os primos Martim Melo e Rita Covas novamente em destaque no Público

Martim Melo passou anos a ouvir um canto único. Agora, descreve nova espécie de mocho

O biólogo português descreveu o mocho-do-príncipe mais de 20 anos após ter ouvido o seu canto distintivo pela primeira vez. A ave é endémica da ilha do Príncipe — e estará fortemente ameaçada.

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Uma equipa internacional de investigadores, vários dos quais são portugueses, acaba de descrever uma nova espécie de mocho na ilha do Príncipe, parte do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Endémica, a ave vive numa pequena parcela do Parque Natural Obô, uma área protegida, e distingue-se pelo seu canto único, que segundo os investigadores pode “lembrar o de insectos”. Estima-se que haja 1000 a 1500 indivíduos do mocho-do-príncipe (Otus bikegila), conforme foi baptizado. Os investigadores recomendam que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla inglesa) classifique a espécie como “gravemente ameaçada”.

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Uma carta secular

O terceiro capítulo desta história deu-se em 2007, quando Martim Melo se deslocou até à ilha com Martin Dallimer, da Universidade de Leeds (Inglaterra). O seu objectivo era sobretudo estudar a distribuição e abundância do gravemente ameaçado tordo-do-príncipe, mas a dupla também queria determinar a origem dos chamamentos. Foram feitas novas gravações, tendo sido também desenhado um mapa dos cantos, mas os dois investigadores não conseguiram ver nenhum mocho-do-príncipe.

Dois anos mais tarde, a bióloga Rita Covas, também ela do Cibio, visitou em Nova Iorque o Museu Americano de História Natural (AMNH, na sigla inglesa) e descobriu nos seus arquivos uma carta do português José Correia. Em 1928 e 1929, este esteve no golfo da Guiné, onde São Tomé e Príncipe também fica, a propósito de uma expedição encomendada pelo AMNH, para o qual trabalhava. A sua missão consistiu em caçar aves e depois mandar a pele, com as respectivas penas, para o museu, onde as respectivas espécies viriam a ser estudadas e descritas.

A carta descoberta por Rita Covas nos arquivos do AMNH foi escrita a 3 de Outubro de 1928 na ilha do Príncipe. Nela, José Correia explicava a Robert Cushman Murphy, ornitólogo do AMNH, que até então ainda não vira nenhum mocho na ilha, porém já havia ouvido histórias sobre mochos raros, que eram vistos nas “florestas selvagens” muito de longe a longe (a cada dez anos, por exemplo).

“A carta deu-me força, mostrou-me que havia suspeitas antes das minhas”, conta Martim Melo ao PÚBLICO. “Ainda havia muita indefinição — os tais mochos raros podiam ser aves migratórias, por exemplo —, mas também havia razões para acreditar que valia a pena continuar a escavar.”

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Martim Melo está, naturalmente, muito feliz por, mais de 20 anos após ter ouvido pela primeira vez o canto do mocho-do-príncipe (e quatro após ter visto um indivíduo com os seus próprios olhos), ter finalmente descrito a espécie. “Quando era mais novo, custava-me a crer que descobriria uma espécie nova. Foi engraçado este processo, este mistério que aos poucos se foi adensando — e que aos poucos fomos resolvendo. É um momento de festa.” E, também, um passo importante para proteger o animal.

por Daniel Dias - 1 de Novembro de 2022, 6:28

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