N'sahoo de Tunduro com Jaime Santos
Santo Amaro de Oeiras é um bairro-satélite de Lisboa, a meio caminho do exuberante Cascais. Muito pacatinho , não há quase vivalma durante o dia, caminhando pelas suas estreitas ruas de pedra e betão.
A cantina aberta ao fundo é o local mais frequentado pelos moradores, que para ali vão comprar produtos frescose, e claro...vinho!
...Eu vivi neste bairro sisudo, entre 1986 e 1987, donde saia de manhã cedo, para só à noite regressar, após a labuta. Viajava de comboio, apreciando, todos os dias, o Tejo, de cujo estuário- sempre me recordava - tinham partido as naus e as caravelas de Vasco da Gama, que acabou "descobrindo" meu tataravô Sayethe, orgulhosamente estabelecido ali, na...:terra da boa gente"!
O dia-a-dia do jovem jornalista, correspondente na ex- "Mãe-Pátria", desenrolava-se entre receber (por telex) notícias de Maputo e apregoa-las aos editores locais, para as publicarem, e a pesquisa local de informação relevante, para processa-la e enviar para Maputo.
Para quebrar a modorra, recebia, de quando em quando, as visitas, quase sempre muito ruidosas, de estudantes moçambicanos- por vezes misturados com colegas angolanos, tomando os Sábados de assalto, no meio de guitarradas, feijoada bastante e, claro, algum vinho tinto...barato.
Era a tertúlia da diáspora estudantil, a que jocosamente chamávamos de "quadros no exterior", sempre de tendências imprevisíveis: tal era a diversidade de sua origem e áreas de estudo, com uma excepção: a predominante turma de Oitomarcistas: aquela malta que se chama a si própria de "geração 8 de Março"! Quase uma praga, sabe!
Mas havia ainda os "outros": aquela malta da Beira, tipo Isau Menezes, José Diquissone...entre outros.
Porém, ainda do grupo Oitomarcista, haveria de aparecer um conviva à parte: um tipo absolutamente fora de qualquer "caixa"; sempre falando com gestos largos e tendencialmente mais alto que a maioria; um gajo desses, pleno de energia e com várias toneladas de gargalhadas para descarregar...a custo zero!
Ao contrário da maioria dos bolseiros, ele não fora a Lisboa para estudar assuntos da vida dos Homens, não: ele para lá fora para estudar como, em palco, representar o infinito espectáculo que é a vida dos Homens! No fundo, o perplexizante espectáculo que sempre fora a sua própria vida!
Não foi preciso eu fazer-lhe convite formal: o nosso intenso convívio, pleno de informais cumplicidades, fixou-o naturalmente em minha casa, ali em Santo Amaro de Oeiras. E, replicando as "republicas" dos estudantes bolseiros, nós também instalamos aí a nossa "republica a dois!"
Para além da sua vastíssima cultura geral, que despeja espontaneamente entre duas gargalhadas, do seu imenso conhecimento do mundo das artes e da cultura- e de seus mais ilustres representantes pelo mundo fora, onde se destaca, claro, a poesia e as artes cênicas - ele representava, e muito bem, essa infinita riqueza cultural, fruto do encontro genético entre Goa, África e Europa!
É com ele que vou aprender a apreciar e a cozinhar pratos de sabores unicos - e sempre muito picantes! -como o chacuti (de cabrito); o sarapatel; e, ah! o picante caldo de cabeça-de-garoupa!
E aí, com a poesia de Craveirinha (inevitavelmente); de Nogar, de Magaia e de um cada vez mais insinuante Eduardo White, entremeados pela melancólica voz de uma Elis Regina, ou ainda revivendo, com o Chico, a velha "Ópera do Malandro", transformavamos o taciturno Santo Amaro de Oeiras num pequeno , porém caloroso coreto do Jardim Tinduro, em N'sahoos a dois: eu e o meu amigo Jaime Santos!
Não, eu não vou desejar-lhe "descanso em paz"! Não ao Jaime! Pois sei que ele manter-se-a sempre como o conhecemos: irrequieto e enérgico, por vezes mesmo, demasiado enérgico e expansivo, pronto a distribuir suas gargalhadas sonoras...a custo zero!
Eu te abraço, Jaime!